sexta-feira, 24 de setembro de 2010

turn my back

subconsciente


Olhos nos olhos, num discurso bem suave, queres abrir a porta mas não encontras a chave. Seja qual for a minha textura, tenho sempre as dúvidas do meu subconsciente.

terça-feira, 9 de março de 2010

adultos de corpo, crianças de alma



Uff! Acabamos de fazer amor. Os nossos corpos encontram-se estendidos ao longo destes lençóis escorregadios dourados como duas crianças deitadas num campo de searas, felizes de alma, imcompreendidas pela idade, rebeldes por natureza.
Levantamo-nos sem pudores e preconceitos das peles nuas e feitas de seda. Tu percorres até a janela, e o tempo que sais da beira da cama e caminhas até ao parapeito da grande janela durou uma eternidade, observei o movimento em câmara lenta, com esta minha mania de observar à maneira de uma artista. Poça amor! Como és tao belo! O teu corpo... o teu andar... a maneira como metes o cigarro à boca, a maneira como acendes o isqueiro, a maneira como aspiras o fumo, a maneira como lanças fumo... e o que mais gosto, a maneira como fazes argolas de fumo...
Observo-te assim, ao som de Portishead que se ouve da janela do prédio em frente ao nosso, sentada, nua no meu cadeirão forrado de veludo vermelho de luxúria à maneira de um aposento palaciano, acendo também o meu cigarro e pinto o teu corpo com os meus olhos...como um pintor de rua que tira as medidas com o seu pincél ao retratado.
As pessoas quando acabam de fazer amor tendem a fumar logo de seguida, para dar mais prazer ao corpo que ainda está em êxtase, suados, húmidos, amados e com odor dos sexos de ambos. Sao pequenos prazeres da vida que nos proporciona. São pequenos pormenores que eu capto espontaneamente como a polaroid.
Beijas-me. Vais à cozinha? Traz-me uvas meu amor... morangos... e um sumo de laranja para refrescar o meu corpo...apetece-me um pequeno almoço daqueles como costumamos ver nos filmes de actrizes mais conceituadas de sempre e actores com sorriso e voz de mel...que qualquer mulher sonhadora espera um dia que esse homem feito de mel nas cordas vocais apareça à porta do seu 7º andar com um ramo de flores e uma garrafa de vinho das melhores adegas, ou então um George Clooney com dois cafés cheios em copos grandes de cartão, em vez de uma máquina de café que mais na berra está neste momento, e lhes diga bom dia....sempre é mais romântico e inesperado.
Ponhamos as Jessicas Parkers e Clooneys de lado, quero amar-te mais um bocado... durante esta manha, esta noite, amanha, durante os 7 dias da semana, durante os 30 dias do mês, durante vários anos... durante a vida toda. Porque isto que sai daqui desta caixa chama-se amor, e quero permanecer contigo como as duas crianças que se deitam incompreendidas em campos amarelos, de olhos fechados, a sorrir por dentro e por fora, de maos atadas....simplesmente. Seremos assim... adultos de corpo, crianças de alma.


(Todas as fotografias e textos são de minha autoria)

segunda-feira, 1 de março de 2010

lugar vazio


Está frio de rachar e a chover picaretas para ajudar à festa, vem devagar com o carro e quando chegares deixa as botas a secar à entrada e não faças barulho, já sabes como é a vizinha Jacinta.
Um dia é uma vida. Um dia de trabalho. Um dia de preocupações. Um dia é uma vida que tem destino marcado, mas para mim o dia pode acabar mas tu continuas eterno.
E o amor é mesmo isso, como os nossos dias de trabalho e feito de preocupações. O amor também se constipa quando apanha temperaturas diferentes, o amor também necessita que lhe aqueçam os pés depois de um dia ausente e o amor também se contenta com pequenos mimos de chocolate em frente à lareira.
Amor, sabes que eu coloco sempre o verbo no presente, porque ainda te amo, mesmo que agora estejamos em lugares distante, como a terra e o céu, literalmente.

Não gosto de ausências nem de lugares vazios. Coloco sempre um prato e talheres a mais na mesa com a esperança que um dia voltes, como e falo das tragédias que acontecem pelo mundo por fora como sempre o fizemos à hora de jantar, falo-te dos nossos amigos Pedro e Joana, sabias que eles vão ser pais? Tao bom não é? Eles teriam muito orgulho em te ter como padrinho do filhote que aí vem, mas adiante...
Sabes que ainda continuo a fazer sempre um chocolate quente a mais? Sim meu amor, não me importo que o beba depois, quero sentir a tua presença apenas. Aconchego sempre a tua almofada quando me deito, faço caricias como se a tua linda face estivesse lá. Eu continuo a ser feliz, porque sei que te foste embora feliz sem remorsos e rancores, para um outro lugar. Sou feliz, porque sei que um dia nos encontraremos nesse lugar maravilhoso.

Vou desligar meu amor, não gastes mais saldo.
E não te esqueças, quando chegares deixa as botas a secar à entrada, não faças barulho por causa dos vizinhos, e depois vem para o quentinho, está a lareira acesa, acendia-a para nós. O nosso amor foi e sempre será como a chama que arde na lareira.

(Todas as fotografias e textos são de minha autoria)



domingo, 21 de fevereiro de 2010

frio e cru




Tudo à minha volta estava tão frio, tão cru. Já nada tinha cor e textura, já nada tinha essência, sentido e logica. O meu deja-vu tinha dado certo, não foi sonho. Os ramos das arvores estavam estáticos e carregados de neve, como o peso da minha consciencia. Sente-se um bocadinho do cheiro a lenha queimada que sai das chaminés e castanhas assadas que os vendedores tentam vender com muitas dificuldades, nos seus carros de mão.
Permaneci no meio do grande jardim cheio de neve, sozinha, de pé, de mãos nos bolsos, tentando aquecer-me ao máximo no meu casaco vermelho de grandes botões, esse que tanto gostas, surda e muda, à tua espera. Sabe-me a vento, sabe-me a terça-feira de céu enublado triste, sabe-me a presenças invisiveis, sabe-me a maus pressentimentos. Hoje é dia 23 de Dezembro, não sinto que amanhã seja Natal, tudo o que me rodeia é tão feio e selvagem que só me apetece estalar os dedos e fugir, as pessoas correm loucas e atarefadas de um lado para o outro de grandes sacos e embrulhos na mão, como se isso fosse muito urgente. Por favor, não estou pra espiritos natalicios, não estou pra festas, postais de Natal anuais, nem consumismos. É ridicula esta época, este ano é ridicula! Não sinto nada! Apenas sinto que este Natal já nao estarás ao pé de mim no sofá, agarrados, partilhando carinhos e Marshmallows acompanhados com chocolate quente, e amando em frente à lareira.
Continuei a esperar por ti, nunca foste bom com horários. Pensei em chorar, mas o frio congelava-me as vontades. Pensei chamar por ti, pensei ligar-te, mas nesse momento apareceste, foi como se fosse telepatia. Frente-a-frente, ficámos a olhar um para o outro, minutos... sem pronunciar uma palavra. Dei por mim a pensar no primeiro beijo e nas noites de amor que passámos. Distancias-te, desligaste de mim aos poucos, estavas perdido e os teus lábios foram tocar noutra maldita boca. Eu sabia-o, nojo foi o que senti, mas continuava a amar-te. Queria bater-te, mas queria beijar-te, é um tipico amor-ódio. O silêncio estava a dar cabo de mim. Começaste a chorar e quis abraçar-te, tocar nos teus cabelos e limpar-te as lágrimas, mas continuei no meu lugar, forte, poderosa e fria.
"Desculpa", beijaste-me uma ultima vez e foste embora. A tua imagem ao longe ia desvanecendo como nevoeiro. O nosso amor sempre fora especial. Quis dizer-te mais uma vez amo-te, mas deixei-te ir. Senti um camião passar por cima de mim, senti o pior espirito natalicio, senti-me como se sem alma.

(Todas as fotografias e textos são de minha autoria)



maresia




Acordei com um sorriso na cara, passo a mão do lado da cama onde tu dormiste, ainda está quente, aprecio esses pequenos toques, enquanto tu te vestes para o emprego. Toques esses, doces e suaves como os teus lábios. Passas a mão nos meus cabelos, beijas-me, segredas um forte amo-te e vais para a tua rotina. Arrepias-me! Só os lençóis conhecem o sabor da nossa pele, a tua fragância, a minha, o cheiro dos charutos caros que te ofereceram ontem à noite no baile. Cheiro o teu casaco, abraço-o, acaricio-o, danço com ele... a paixão traz destas coisas malucas aos humanos. Esse cheiro, tenro, irresistível, o perfume que te ofereci no dia dos namorados. O meu coração esboça sorrisos de orelha a orelha, ligo o gira-discos e ponho um íntimo e sensual jazz de Sade. Visto-me, hoje demorei a escolher o que vestir, escolhi aquele simples, azul marinho, que vesti no nosso primeiro encontro. Penteei-me, mimei os meu caracóis distraidamente....(contigo no meu pensamento) pus rimel, vesti o casaco branco dos botões pretos, grandes, brilhantes e profundos como os teus olhos, e fui para o meu atelier.
A nossa História é mais do que escrevo, sentimentalmente, no meu imaginário. A nossa Historia vai mais para além dos 5 sentidos e de cada pormenor. É nossa, é verdadeira. É a melhor que conheço. Amo-te tanto.

(Todas as fotografias e textos são de minha autoria)

blues com cigarros



A lua aquecia a noite e era a única testemunha daquelas esquinas dos bairros dos namoricos, onde as mulheres donas de seu nariz regavam vasos ao luar e punham-se à escuta do que nao lhes convinha. Regavam, amavam as suas plantas com quantos beijos beijavam. Faziam-me lembrar as noites de São João, havia calor e risos, havia amores e desamores naquela rua. Havia os felizes de garrafa vazia na mão a desenhar circulos e curvas pelo bairro fora, jovens a aproveitarem as ultimas estrelas da noite. Eu fumava o meu cigarro e observava o mundo, na varanda, num suave baloiço da cama de rede e pano feita do passado e antepassado. Fazia argolas de fumo e sorria para o meu signo desenhado no céu. A rádio passava uma doce sessão de blues e pesticava-se. Gostava de viver à beira-mar, mas vivo orgulhosamente no cimo de um predio velho carregado de vizinhança e curiosos da vida alheia. Há movimento, há vida. O mar apenas traz reflexão, o cachimbo do sossego e da solidão. Não se ouve o mar nem os búzios, mas ouve-se os burburios e palrar das crianças lá fora a brincarem às escondidas e o rodopiar o pião, dos rapazinhos a experimentarem pela primeira vez a estrada e as moças a exibirem os seus cabelos à procura do amor perfeito, daqueles amores de verão passados numa pequena mota italiana e os jantares nas velhas tascas de toalhas aos quadrados vermelhos e brancos como o meu vestido preferido que usei no meu primeiro beijo, esses amores, como os amores-perfeitos dos meus vasos.


(Todas as fotografias e textos são de minha autoria)